NAS AULAS DOS GUERREIROS A GRANDE ESTRELA É O FREVO!

Veja algumas imagens e tire suas próprias conclusões.

UNIÃO ENTRE PASSISTAS, É POSSÍVEL?

OPINIÃO. Fala-se muito da necessidade de ver um dia a tão esperada união entre os passistas de frevo.

A FORÇA DA CAMISA AZUL

Nas aulas do Projeto Frevo na Praça, já foi possível observar que os professores dos Guerreiros do Passo, utilizam nos seus encontros semanais no bairro do Hipódromo...

MAX LEVAY REGISTRA OS GUERREIROS DO PASSO

O pernambucano Max Levay, profissional de reconhecido talento da arte da fotografia, fez um bonito registro dos Guerreiros do Passo no último mês de março. O artista produziu...

FOCO NO APRENDIZADO

Hoje em dia a busca por um melhor condicionamento na arte desenvolvida pelos famosos passistas de frevo, tem levado alguns praticantes a sair por ai pulando de aula em aula...

News - Guerreiros pretendem retornar às atividades abertas ao público ainda este ano/ Este site vai entrar em manutenção.

Oficina de montagem e conserto de sombrinhas

Domingo passado (dia 20), realizou-se na sede dos Guerreiros do Passo mais uma oficina de conserto e montagem de sombrinhas de frevo. O trabalho visa restaurar e recuperar os utensílios das aulas, usando peças e sombrinhas quebradas arrecadadas no Projeto desenvolvido na Praça do Hipódromo, e que ainda podem ser reutilizadas para a remontagem de outras ou compor partes fundamentais na estrutura das mesmas.

O que para muita gente é descartável, para nós é a maneira que encontramos de manter em dia os instrumentos básicos das aulas, já que a compra de sombrinhas novas torna-se inviável na atual realidade do grupo. Com a iniciativa, evita-se que materiais plásticos, madeira e ferro sejam jogados rapidamente na natureza, preservando o meio ambiente e conservando um hábito herdado do Mestre Nascimento do Passo. Participaram da oficina, o professor Gil Silva, Lucélia Albuquerque, Daniele Costa e Eduardo Araújo.

O HOMEM DO ACERVO

Publicado no DIARIO de PERNAMBUCO em 20 de maio de 2012.

Pesquisador Leonardo Dantas guarda em casa mais de 500 vinis, a maioria de música pernambucana, além de livros de frevo e forró
Imagem: NANDO CHIAPPETTA/DP/D.
Abrindo sobre a mesa de jacarandá um dos livros que editou sobre a história do Recife, o jornalista e pesquisador Leonardo Dantas aponta para uma foto do bairro da Torre, na Zona Oeste da cidade. Mostra a Igreja, a casa espaçosa, uma chaminé. Tudo cercado por mato. A foto é de 1980 e nesses mais de 30 anos tudo mudou ao redor. A vegetação deu lugar às ruas, à praça e às casas - que já estão virando passado, substituídas por edifícios altos. Leonardo Dantas resiste. Mora na mesma casa em que nasceu, a poucos metros da igreja da Torre. Os cômodos são abarrotados de quadros, esculturas, móveis antigos e livros. Ele já editou 377 livros, sendo 47 escritos ou organizados por ele. Sete são sobre a música pernambucana.

Mais conhecido como pesquisador da história da cidade, Leonardo Dantas tem um currículo extenso em 50 anos de trabalho. Entrou para o jornal Diário da Noite aos 16 anos, como revisor. Passou mais de 20 anos nas redações. Foi o criador do Frevança e do extinto Baile da Saudade, que ocorreu por 18 carnavais no Clube Português. Dirigiu a editora Massangana e produziu discos para a Rozenblit. Fez amizades para a vida toda no meio artístico. Claudionor Germano, de 80 anos, é considerado um irmão. “Quando tive problemas de saúde, quem estava do meu lado no hospital, às 5h da manhã, era ele”, conta.

O frevo é sua grande paixão musical. Na juventude, era um bom passista. Chegou a escrever um livro detalhando o método da dança do frevo, para ser utilizado em escolas da rede pública. “Fiz um projeto para retirar o balé das escolas e colocar frevo, maracatu, caboclinho. Foi uma polêmica”, lembra. Nos móveis em que guarda seus mais de 500 LPs há preciosidades quase intactas como álbuns de Capiba autografados e um bom material de música brasileira lançado por empresas de vida curta, como o selo Marcus Pereira Discos.

Tem LPs dos irmãos Raul e João Valença, de Levino Ferreira - que foi seu professor de teoria musical e a quem considera o maior compositor de frevo de rua -, coletâneas de cultura popular e o primeiro disco com gravações ao vivo de frevo, feito em 1980 no Teatro de Santa Isabel. Entre os inúmeros livros, uma cópia de O sanfoneiro do Riacho da Brígida, de Sinval Sá, com dedicatória “ao bom amigo-conterrâneo Leonardo Silva”, assinada por Luiz Gonzaga. (Ele deixou de assinar “Leonardo Silva” quando um criminoso como esse nome apareceu nos jornais).

Apesar do amor ao frevo e à música, Leonardo Dantas não toca nenhum instrumento. “Eu estudava com Levino Ferreira e aí ele disse que eu tinha que comprar um piano. Eu disse que não podia, ele retrucou que comprasse pelo menos um clarinete. Fui à loja e falei ao meu pai o preço de três contos e quinhentos. Ele respondeu: ‘isso é quanto teu pai ganha em um mês!’”. No final da tarde da quarta passada, Leonardo recebeu o Diario em casa para uma conversa. Foram quase três horas que correram fácil, em meio a lembranças e projeções. O carnaval foi tema constante. Confira. (Carolina Santos)

Centenário de Luiz Gonzaga
Concordo com todas as homenagens ao seu centenário. Tudo que fizerem por ele é merecido. Acho que falta mais pesquisa sobre a obra e a vida de Luiz Gonzaga. O livro da francesa Dominique Dreyfuss (Vida de Viajante, editora 34) foi construído a partir de vários depoimentos dele, mas não aborda a discografia. Os pesquisadores estrangeiros vêm atrás de documentos, mas eu acho que ainda está faltando uma biografia completa para Gonzaga. Você pega o livro de José Mário Austregésilo (Luiz Gonzaga, o homem, sua terra e sua luta, editora da Fundação de Cultura Cidade do Recife) e tem letras erradas. Luiz Gonzaga merece tudo, mas foi perseguido por ser considerado de direita. E por ser de direita, foi soterrado. Quem levantou Luiz Gonzaga foi Carlos Imperial ao inventar o boato, na década de 1970, de que os Beatles iam gravar Asa branca. 

Luiz Gonzaga, o homem
Conheci Luiz Gonzaga nas redações, nas rádios. Ele era um cara que não imaginava o valor que tinha. Era um imediatista. Não estava interessado no futuro, mas em ganhar o dinheirinho dele naquele momento. Agora esse dinheirinho era em cima de um caminhão, na esquina, em qualquer lugar. Era um sujeito autêntico e muito bom. Sempre incentivou quem vinha atrás. Marinês, Zé Calixto, Dominguinhos, Quinteto Violado, todo mundo é cria dele. A casa dele no Rio de Janeiro era uma hospedaria. Acompanhei o início do romance dele com Edelzuíta. Ela trabalhava numa firma de empréstimo perto do Diario. Gonzaga era apaixonado por ela. Foi um amor de velhice. Me lembro da briga de Helena com Luiz Bandeira. Bandeira fez Fulô da marvilha quando estava começando o caso de Gonzaga com Edelzuíta e Helena dizia que Bandeira tinha feito a música de encomenda de Gonzaga para Edelzuíta. 

Parceria com Capiba
Gonzaga dava o mote e o compositor fazia a música e depois ele assinava em parceria. Gonzaga diz que Zédantas já chegou no hotel dele cantando umas músicas. Então já tinha melodia e letra! Ele colocou o nome na parceria com a música pronta. Já Capiba fez Engenho Massangana e Gonzaga queria assinar também, para gravar. Capiba, vaidoso do jeito que era, não aceitou. 

Política cultural
Quem vem depois faz o possível para acabar o que você fez e fazer outra coisa. Eu digo que a primeira coisa que um chefe faz é mudar a arrumação dos móveis e colocar uma placa dizendo que foi ele quem arrumou. Não há continuidade nas políticas de cultura. Do que eu fiz, a oficina de luteria, que poderia estar com pessoas formadas para consertar instrumentos, não existe. O projeto Espiral foi extinto também - a Orquestra Cidadã é uma reedição dele. Não existe programa editorial na prefeitura. O que a prefeitura publicou? O que o estado publicou? Nada, nada.

Carnaval de palco
É uma desgraça, acabou o carnaval. Eu resolveria aquilo ali de uma forma simples. Transformaria o Marco Zero em grande baile. Com dois palcos, mais baixos - para que aquele palco tão alto? - um na ponta e outro na outra e as atrações se cruzavando. A música não parava. Porque se passa 1h40 para assistir uma Maria Gadú que não sabe nada. Ou uma “Zefa do Pifo”, Zeca Baleiro… o que esse povo canta de carnaval? Você podia pegar esse povo todo e diluir durante o ano. Tinha festa o ano todo. E no carnaval colocava os ritmos carnavalescos. Esse ano colocaram uma orquestra local para abrir cada dia e elas é que esquentavam, depois era aquela monotonia…

Frevo moderno 
Se eles fazem um frevo para dançar, tudo bem. Mas se eles querem fazer demonstração de jazz, não dá. Tem até músicas de Chico Science que o povo vem abaixo. Mas quando você faz variações como aquele show de Lenine (na abertura do carnaval de 2011, em homenagem às mulheres), não leva a nada. Fica um olhando pra lá, outro pro palco. Um grupinho que curte canta aquelas músicas, o resto fica só olhando. Mas você coloca um Duda, um Ademir Araujó, ou o próprio maestro Forró, e o Marco Zero vem abaixo. O carnaval sempre foi multicultural. Já no século 19 tinha maracatu, frevo, todas as diferentes manifestações, inclusive de etnia. Não é novidade nenhuma, apenas deram esse nome bonitinho, feito em agência. Todas essas atrações já vêm num pacotinho pronto para cá. Essa história de homenagear as mulheres já veio pronta. Eu não vejo a cultura só para homem, para mulher, para gay. Vejo cultura como uma coisa só. 

Diversidade
Você não vê uma orquestra de frevo tocando no São João. Isso nunca aconteceu porque carnaval é carnaval, São João é São João. Agora, “dona Zefa do pife” tem que tocar no carnaval e no São João porque é multicultural! Alguém está ganhando comissão. As orquestras e agremiações que desfilaram no carnaval ainda não foram pagas. Algumas estão esperando até o dinheiro do São João passado. Abanadores do Arruda e Coqueirinhos de Beberibe ainda não receberam.

Um breve Adeus ao Mestre dos Blocos

Um sonho assim
Não se esvai no fim da noite
como se fosse
uma noturna ilusão...
Vê que ainda
cintilam no sonhar da gente
dois vagalumes de paixão!
Ah, quanto lirismo em nossa fantasia!...
Quanto desejo da luz ao nosso olhar!...
Vê que mesmo
além de uma noite finda
há uma esperança,
ainda que nos faz sonhar!

Romero Amorim
1937 - 2012
 

GUERREIROS DO PASSO EM REDE NACIONAL

Neste sábado, dia 24 de março, a TV BRASIL reapresentou o programa EXPEDIÇÕES. O tema desta vez foi o Frevo. Os Guerreiros do Passo participaram das filmagens com imagens do grupo e entrevistas. Para àqueles que não puderam assistir o documentário nas duas oportunidades em que foi exibido, poderão ver na íntegra agora.

Frevo vai além de fazer o passo

PARTITURAS - Músicos e defensores do ritmo pernambucano ficam abismados com a falta de material que permita transmitir a todos a beleza de sua estrutura
Especial para o JC - Matéria publicada no Jornal do Commercio dia 04 de março de 2012
Conversar com José Menezes é o mesmo que entrar numa viagem pela história viva da música brasileira. Nascido na cidade de Nazaré da Mata, interior do Estado, e integrante de uma família de músicos, o maestro dedicou 70 dos seus quase 89 anos de idade a um dos mais notáveis e originais ritmos nacionais: o frevo. A paixão do compositor e arranjador pelo estilo é de encantar e contagiar. No entanto, parte da empolgação se dilui quando perguntado sobre o andamento do ensino do frevo em sua própria terra de origem. Não tem método! Não tem escola! Tá tudo errado! angustia-se.
O lamento do autor de grandes frevos como Vai pegar fogo, Terceiro dia, Tá bom demais, entre muitos outros, além de bastante pertinente, chega a ser surreal. Como uma arte centenária ainda não foi sistematizada em larga escala, não ganhou métodos de ensino e distribuição em território nacional e internacional?

É muito, na verdade, muitíssimo mais fácil um músico pernambucano encontrar obras educacionais sobre jazz, pop, rock, funk, heavy metal, música latina ou africana do que achar títulos (infelizmente, imaginários) como: Ensino básico de frevo para bateria, Técnicas de improvisação no frevo, Play alongs de frevo para baixistas ou Frevo para saxofonistas.

Importante nome do cenário da música pernambucana atual, o maestro Spok afirma que essa é uma preocupação que o acompanha e tem se intensificado há, pelo menos, uma década. Ele conta que, certa vez, ao viajar para tocar com Antônio Carlos Nóbrega em uma cidade da França, passou pelo que considera um grande constrangimento. Ao término de show ao ar livre, um músico encantado com a apresentação chegou junto de mim e me pediu partituras, informações, métodos sobre o que estávamos tocando. E, sem jeito, disse que não tinha isso, relembra.

Zé da Flauta músico, compositor, ex-diretor artístico e produtor da SpokFrevo Orquestra, entre 2002 e 2011, faz coro com o antigo parceiro de trabalho. Para ele, já passou o tempo de se encarar o frevo apenas como música sazonal, que aparece no Carnaval como coadjuvante. Ele tem que ser o ator principal. No meio da folia, a riqueza musical do frevo se perde, não é observada. Por isso, falo sempre do frevo de palco. Trabalho que começou a ganhar corpo com a SpokFrevo, observa.
A título de experimento, sentado diante do computador, em seu escritório em Casa Forte, o músico digita a palavra frevo no Google e clica no item imagens no menu superior do site de busca. Veja o que aparece: passo, passo, passo! Apenas imagens da dança, da festa. Onde estão as imagens dos músicos?, indaga. Em seu discurso, Zé da Flauta procura não deixar espaços para má interpretações. A festa, o passo são importantes, mas ele defende a tese de que o frevo a exemplo do jazz tem qualidade, autenticidade e força suficientes para ser apreciado por um público atento, exigente. Passo não pode existir sem frevo! Mas existe o frevo sem passo, é lógico!, costuma repetir.

Tanto Zé da Flauta quanto Spok ressaltam a ótima receptividade que as apresentações da orquestra tiveram e continua a ter em festivais de jazz em outras cidades do Brasil e do mundo. Entre os dias 13 de março e 1° de abril, estaremos em turnê pelos Estados Unidos, tocando e fazendo workshops em universidades. Adoro a festa, o Carnaval, mas sou muito mais feliz tocando em teatros, com o máximo de cuidado na execução, diz Spok.

Zé da Flauta e Wellington Lima (outro ex-empresário da SpokFrevo Orquestra) estão empregando os conhecimentos adquiridos com a citada big banda pernambucana em um novo grupo. Chama-se Real Frevo Orquestra. Ele conta com ótimos músicos e vamos dar continuidade à ideia de difundir o frevo como música para ser apreciada em teatros, ressalta.

Já vem a tradicional enxurrada de eventos de axé e pagode pós-carnaval.

ARTIGO
Bem acabaram as festas, desfiles e shows musicais nas cidades do Recife e Olinda, e já deram inicio aos eventos chamados de pós-carnaval, como: Festa da Ressaca, Selinho não é gaia, Caldeirão Mix, Recife Mania Festa, Não Acredito que Te Beijei entre outros.

Apresentações e uma seleção repleta de artistas e sons que invadem nossos ouvidos durante o ano todo, e de tanto nos infernizar tocando repetitivas vezes em rádios, tv’s e na internet, não é difícil imaginar que nos peguem também cantarolando seus versos e letras fáceis de memorizar, afinal, é pra isso que elas existem, para nos transformar em lucrativos e radiantes ouvintes. Tudo bem, estamos numa democracia, temos o direito de sermos bobocas.

Sonho com um dia em que nossa música possa tocar também depois do carnaval, como o forró, o axé e o pagode. Nada de bairrismos, não importa que tenham espaço, mas, cadê o frevo, o coco, maracatu? Será que estes ritmos só são bons de ouvir e dançar nas prévias e durante o período momesco? Na prática não me parece que seja assim.

Seria preconceito dos produtores e preguiça cultural de alguns foliões? Será que há uma articulação para sufocar nossos valores? Será que somos ingênuos? Bobos? Burros? Ou somos massa de manobra de um marketing voltado para nos transformar em consumidores dementes de produtos descartáveis, com uma propaganda intencional, sobretudo para nos fazer pensar que somos o que nunca desejamos ser, ou escolher o que jamais pensamos ter?

Creio que aqui existam muitas interrogações para poucas respostas elucidativas. Mas, podemos tentar... Antes foi Reboletion, ano passado Foge Mulher Maravilha, este ano Assim você me mata, e as peças vão se sucedendo, e o que é nosso cada vez mais desvanecendo.

Na verdade, o que mais incomoda não é o sucesso alheio, e sim, o desajuste e desequilíbrio com que são tratadas as manifestações da nossa região. O bom seria que todos tivessem o mesmo espaço e condições iguais de concorrência, o que nunca acontece. Deveríamos começar pela revisão dos contratos de artistas que vem de fora para participar dos eventos patrocinados pelos poderes públicos. Uma extraordinária disparidade se compararmos o tratamento que é dado aos artistas e grupos da terra. Depois, quem sabe, rever as concessões públicas das emissoras de rádio e tv, sugerindo e incentivando uma parte da programação para a propagação dos artistas e gêneros musicais do nosso povo.

Não pensem que estamos isentos de responsabilidades com o que está acontecendo. Este fenômeno também é, de alguma forma, proveniente do nosso descaso em não dar valor e reivindicar mais espaço nas mídias para os valores locais. Vejo muita gente anunciando e propagando nas redes sociais eventos do tipo citado aqui no texto, e não demonstram nenhuma disposição em divulgar ou repassar informações sobre acontecimentos e shows da nossa cultura. Como querem depois que esses grupos e artistas sobrevivam e se mantenham na mídia? Depois não reclamem que eles sumiram do carnaval ou não estão nos Polos carnavalescos de sua preferência.

Não acredito que isso seja um acontecimento natural das transformações culturais ou um processo inevitável dos tempos. Posso apostar que há interferência sim e interesses escusos em obter ganhos exorbitantes em cima de uma população sofrida, acostumada a uma política ideológica de valores culturais duvidosos, voltados especialmente para dominar não somente seu dinheiro, mas também, sua mente.

Eduardo Araújo

Dialética carnavalesca

Por Homero Fonseca
Quadrilhas juninas e carnaval: mais relações do que
imagina nossa vã filosofia - Foto: Carlos Oliveira/PCR
Durante um debate sobre Carnaval, ouvi uma informação surpreendente da boca do Sr. Carlos Orlando Pinheiro, presidente da troça Cachorro do Homem do Miúdo. Pra quem não sabe, as troças são os primos pobres dos clubes de rua: têm estrutura semelhante, o frevo é seu carro-chefe e sua origem é eminentemente popular. Mas tudo em escala menor (orquestra, figurantes etc.). E só desfilam durante o dia, enquanto os clubes são noturnos.

Aliás, pra ser mais preciso, os dois tipos de agremiação há muito tempo vêm passando por um lento processo de decadência, por conta de um complexo processo histórico, iniciado já na longínqua década de 30, quando o carnaval pernambucano passou a ser controlado pela Federação Carnavalesca e tutelado pelo poder público, que passou a financiar os desfiles e, em conluio com a Federação, a ditar normas e critérios de participação.

Tudo bem, não sou saudosista, do tipo que edulcora o passado e sonha com um congelamento do tempo. Tudo muda, inclusive as expressões culturais, populares ou não, entre elas o carnaval. Hoje, prevalece o carnaval-espetáculo, realizado em vários palcos, onde se apresentam artistas locais e, principalmente, do mainstream musical, a troco de altos cachês, para delírio das massas. Não sei se poderia ser diferente, mas sei que é assim.
Escapam dessa sina de atores-coadjuvantes, os blocos líricos, formados maciçamente desde suas origens pela classe média; os maracatus, tanto os de baque solto, quanto os de baque virado, que viraram cult, não só por conta mas principalmente pela explosão do movimento mangue-beat, e a empresa carnavalesca Galo da Madrugada. Também umas poucas agremiações de fortes vínculos comunitários, como Clube Ceroula, de Olinda, e similares.
Talvez eu esteja exagerando, porque uma característica do carnaval pernambucano é sua diversidade e sua forte presença no imaginário coletivo, de modo que se multiplicam tudo que é sociedade carnavalesca, dos mais diversos tipos, em tudo quanto é bairro.
Acho até que há lugar para todos sob o sol que incendeia o Recife e Olinda (e outras cidades do interior, sim senhor), nesta época de chuva, suor e cerveja. Inclusive o Recebeat, uma alternativa claramente não-carnavalesca.

Apenas constato essa tendência da espetacularização e passividade do público, que está desequilibrando a tal diversidade.
Pois bem, nesse quadro que expus muito genericamente e superficialmente, uma coisa bastante clara é a adesão, contrariada ou de bom grado, das próprias agremiações que, em busca de títulos de campeãs e principalmente dos subsídios governamentais, buscam a todo custo um glamour feito-para-a-televisão, elegendo um tema, aumentando o número de figurantes, fazendo fantasias mais luxuosas, acrescentando ou cortando personagens etc.
E aqui chego à surpreendente revelação de Carlos Orlando, do Cachorro do Homem do Miúdo, troça com 102 anos de existência e que não tem nem nunca teve uma sede. Durante o debate, desfiando as dificuldades das agremiações populares, Carlos Orlando lamentou o que chamou de “falta de material humano” para os desfiles (também pudera, a moçada prefere ficar hipnotizada na fila de gargarejos dos palcos, onde desfilam grandes nomes da música comercial brasileira, alguns de alto nível).

Daí, contou ele, muitos clubes e troças contratam quadrilhas juninas inteiras para compor por uma noite seu quadro de figurantes, a fim de desfilar com garbo e majestade perante as comissões julgadoras.

Em suas palavras: “Tem agremiação que, se for campeã e no dia de receber o troféu for chamada, não tem ninguém para ir. Só vai o presidente pegar o troféu, porque não tem o corpo da agremiação pronto. Não é dela. É contratado. É contrato de destaque, de passista, de tudo.”

Aliás, as próprias quadrilhas juninas também estão bastante carnavalizadas (prefiro-as assim, àquelas caricaturas preconceituosas com que os jovens urbanos de classe média pintavam os matutos, no passado, com roupas remendadas, dentes cariados etc). Já comentei esse assunto em outra postagem, neste blogue.

Taí um bom tema para os pesquisadores.

Um passo importante foi dado para salvaguardar o acervo do Mestre Nascimento do Passo

O inicio do ano de 2012 está sendo determinante para conversas e reuniões em torno da preservação do acervo do Mestre Nascimento do Passo.
 
O grupo Guerreiros do Passo comemora um dos primeiros resultados alcançados em prol da manutenção do acervo do famoso passista Francisco do Nascimento Filho.
A Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), entidade de pesquisa ligada ao Governo Federal, acolheu o pedido do grupo, para analisar a possibilidade da instituição receber por doação, os objetos e toda documentação deixados pelo mestre durante sua vida inteira dedicada ao frevo.
Motivo da publicação de um artigo veiculado aqui no Blog, no qual o texto relatava o pedido feito pela viúva do Mestre aos integrantes dos Guerreiros do Passo, solicitando o engajamento do grupo para a conservação do acervo deixado pelo artista, culminou em conversas e contatos com membros da Fundação Joaquim Nabuco, suscitando uma articulação que pudesse reparar, ou mesmo compensar a inércia dos poderes públicos locais, que negligenciaram o caso, não dando importância ao fato. Na visão do grupo, a Fundaj é a instituição mais preparada e com condições para abrigar este acervo.

Um dos primeiros contatos se deu através do pesquisador Renato Phaelante, que repassou o pleito do grupo para a diretoria responsável, e esta, por sua vez, pediu para marcar uma visita com os familiares do passista. A intervenção de Phaelante foi fundamental para isso acontecer.
Na manhã do dia 17 de janeiro, uma equipe técnica da Fundação visitou a residência da viúva do mestre em Campo Grande. Na sua casa, Gecilandi recebeu o museólogo Albino Oliveira e a pesquisadora e historiadora Rita de Cássia Barbosa de Araújo. Também estiveram lá, o filho do Mestre, Jaflis Nascimento e o diretor dos Guerreiros do Passo Eduardo Araújo. Os representantes da Fundação colheram informações, fizeram imagens e ouviram a aflição dos familiares sobre o estado em que se encontra os objetos.
Rita e Albino expuseram a estrutura da Fundaj, mencionando quais seriam as etapas colocadas em prática caso a doação fosse concretizada. Uma das preocupações dos familiares é saber se eles teriam autonomia caso precisassem recorrer a alguma parte do acervo para a realização de projetos ou outros trabalhos. Segundo os representantes da Fundação, o contrato de doação pode conter cláusulas que estabeleça a total liberdade da família, se eventualmente ela quiser ter acesso aos objetos. De acordo ainda com os representantes, a visita vai possibilitar a confecção de um relatório que será enviado à diretoria geral da Fundação.

Depois de ouvir os argumentos dos representantes da Fundaj, os familiares eliminaram qualquer dúvida ou preocupação, e prontamente, Jáflis, concordou com a opinião dos técnicos, dizendo que antes de qualquer coisa, seria imprescindível primeiro recuperar os itens do acervo, ao invés de programar alguma outra ação. Eles solicitaram inicialmente, que fosse realizada uma contagem preliminar dos materiais, o que servirá para alimentar o referido relatório.

Para este levantamento, foi realizado outro encontro, no dia 05 de fevereiro, e desta vez foram convocados passistas e amigos próximos para cooperar. Dos que foram convidados, estiveram presentes: Valdemiro Neto, Lucélia Albuquerque, Otávio Bastos, Eduardo Araújo, Gil Silva, Ricardo Brito, Luciano Amorim, Edson Flávio, Jaqueline Veiga, Jaflis Nascimento, Laércio Olímpio e sua esposa Maria Cristina, que se dividiram em equipes com o objetivo de fazer a organização de jornais, fotografias, documentos, troféus, entre outros.
Sabemos que o processo de doação é lento e demorado, mas, já é um grande começo para tentar superar os obstáculos burocráticos e colocar em condições de apresentação, o legado herdado de um dos mais importantes artistas populares do nosso tempo.
Daqui em diante, todo o andamento e as conversas provenientes da doação serão acompanhados pelos Guerreiros, e os desdobramentos gerados, terão espaço para divulgação aqui no site.

Viva o Mestre Nascimento do Passo e sua história.

Guerreiros do Passo é tema de reportagem publicada na Revista LET'S GO Pernambuco

Ano 1 - Nº 7
RITMO EM MOVIMENTO
Bailarinos lutam para manter o frevo como cultura viva. Para isso, fazem releituras da manifestação. 
Por Conceição Ricarte 
Fotos Carlos Vieira 

A primeira coisa que caracteriza o frevo é ser, não uma dança coletiva, de um grupo, um cordão, um cortejo, mas da multidão mesmo, já que a ele aderem todos que o ouvem, como se por todos passassem uma corrente eletrizante. De acordo com o Vocabulário Pernambucano de Pereira da Costa, a palavra frevo, corruptela de “ferver”, significa “efervescência, agitação, confusão, rebuliço; apertão nas reuniões de grande massa popular no seu vai-e-vem em direções opostas como pelo carnaval”.
O ritmo dos metais, uma marcha de ritmo sincopado, violento e frenético, é acompanhado pela multidão, que ferve e ondula nos meneios da dança.

O coreógrafo, pesquisador e professor de frevo Eduardo Araújo tem 36 anos, e aderiu ao ritmo há 20. “Comecei a ter aulas na Escola Municipal de Frevo do Recife, com o mestre Nascimento do Passo (criador da escola e famoso passista, cujo nome de batismo era Francisco do Nascimento Filho. Ele faleceu em 2009, vítima de câncer)”, conta.
“Minha vida se transformou. Passei a viver o frevo e de frevo”, afirma. Ele explica que, como dança, o frevo tem origem nos capoeiras que vinham à frente das bandas, exibindo-se e praticando a capoeira no intuito de intimidar os grupos rivais.
O passo é a dança que se dança com o frevo. “Mas eles não foram os únicos. Os bêbados, desordeiros e prostitutas, quando estavam na folia, embriagados de cachaça, também criavam passos”, relata.

“Os membros de agremiações ligadas a associações de trabalhadores, como lenhadores, ferreiros e varredores de rua, também criavam movimentos e acabavam por batizá-los com nomes como Tesoura, Dobradiça, Ferrolho”. Quando Nascimento do Passo foi afastado das funções de professor da escola, Eduardo se uniu a quatro amigos para dar continuidade aos ensinamentos do mestre. E assim surgiu o projeto Guerreiros do Passo, que dá aulas de frevo todos os sábados, a partir das 15h na Praça Tertuliano Feitosa, mais conhecida como Praça do Hipódromo, no Recife.
“Só paramos durante a quaresma e no período de chuva, em junho, julho”, garante. O grupo, formado por cinco professores, conta com aproximadamente 25 alunos. “Mas quem quiser é só chegar, as aulas são grátis”, diz o professor e idealizador do Guerreiros. Alunos e professores já se apresentaram em eventos como o Festival Internacional de Dança do Recife, Mostra Brasileira de Dança e Festival de Inverno de Garanhuns. Antes, o projeto mantinha em outras duas comunidades as aulas, mas por falta de apoio, os trabalhos ficaram restritos apenas à praça.

A iniciativa não está ligada a nenhum incentivo institucional público ou privado, sua manutenção é feita pelos professores que arcam com todas as despesas do trabalho. “Procuramos conseguir todas as formas de apoio público para nossas aulas, mas é difícil”, diz Araújo. “O frevo é patrimônio imaterial brasileiro desde 2007”, argumenta.
Além de lutar para manter as aulas, o grupo busca preservar uma das características mais fortes do ritmo desde seu surgimento: o improviso. “Está havendo uma padronização da dança, todo mundo faz os mesmos passos, do mesmo jeito. As apresentações são todas iguais. Nossos alunos aprendem a interpretar os movimentos de uma forma pessoal, sem engessamento”. O Guerreiros volta às origens dessa dança que é a mais característica do Recife, e já possui 104 anos, em outros dois aspectos: a sombrinha e o figurino.

Evolução da Sombrinha
Elemento complementar da dança, a sombrinha é símbolo do frevo e auxilia os passistas em suas acrobacias. Em sua origem, não passava de um guarda-chuva conduzido pelos capoeiristas pela necessidade de tê-la na mão como arma para ataque e defesa, já que a prática da capoeira estava proibida.
Com o decorrer do tempo, esses guarda-chuvas foram sendo transformados, acompanhando a evolução da dança, para converter-se, atualmente, em uma sombrinha pequena de 50 ou 60 centímetros de diâmetro.
“Desde o Frevo (espetáculo montado pelo grupo em 2006, que mostra a história do frevo) começamos a usar guarda-chuvas no lugar de sombrinhas. Acabamos nos acostumando, e retomamos seu uso na nossa dança”, fala Eduardo. No lugar das roupas coloridas do cetim, trajes dos anos 40 e 50.
“Nessas décadas, as pessoas saiam do trabalho e iam para a rua brincar o carnaval. Queremos mostrar que não é preciso nenhuma roupa especial nem nada do tipo para dançar frevo, basta querer”.
Guerreiros do Passo dão aulas de frevo aos sábados, a partir das 15h, na Praça Tertuliano Feitosa
(Foto do acervo do grupo, modificada com relação à publicada na Revista)

Passos do Frevo
Os passos do frevo nasceram da improvisação individual dos dançarinos, e com o correr dos anos, dessa improvisação foram adotados certos tipos ou arquétipos de passos. Existe um número incontável de passos ou evoluções com suas respectivas variantes. Entre os movimentos básicos mais conhecidos estão a Dobradiça, a Tesoura, a Locomotiva, o Ferrolho e o Parafuso.

DOBRADIÇA Flexiona-se as pernas, com os joelhos para frente e o apoio do corpo nas pontas dos pés. Corpo curvado para frente realizando as mudanças dos movimentos: o corpo apoiado nos calcanhares, que devem estar bem aproximados um do outro, pernas estendidas, o corpo jogado para frente e para trás, com a sombrinha na mão direita, subindo e descendo para ajudar no equilíbrio. Não há deslocamentos laterais. Os pés pisam no mesmo local com os calcanhares e pontas.

TESOURA Passo cruzado com pequenos deslocamentos à direita e à esquerda. Pequeno pulo, pernas semiflexionadas, sombrinha na mão direita, braços flexionados para os lados.

LOCOMOTIVA Com o corpo agachado e os braços abertos para frente, em quase circunferência e a sombrinha na mão direita, dão-se pequenos pulos para encolher e estirar cada uma das pernas, alternadamente.

FERROLHO Como a sapatear no gelo, as pernas movimentam-se primeiro em diagonal (um passo) e depois seguem para flexão em meia ponta, com o joelho direito virado para a esquerda e depois para a direita. Repetem-se os movimentos, vira-se o corpo em sentido contrário ao pé de apoio, acentuando o tempo e a marcha da música. Alternam-se os pés, movimentando-se para frente e para trás, em meia ponta e calcanhar; o passista descreve uma circunferência.

PARAFUSO Total flexão das pernas. O corpo fica, inicialmente, apoiado em um só pé virado, ou seja, a parte de cima do pé fica no chão, enquanto o outro pé vira, permitindo o apoio de lado.

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A Revista Let's Go

A publicação da editora Denver preza pela qualidade gráfica e apresenta um design leve, moderno e elegante. Possui conteúdo informativo, que retrata em alto estilo e bom gosto o que os estados da Bahia e de Pernambuco têm de melhor. Desde 2009, circula na Bahia e a partir de novembro de 2010 ganhou sua versão em Pernambuco.

Distribuição: Em toda a região de Pernambuco, Bahia e São Paulo.
Periodicidade: bimestral
Público alvo: Classe A e B