Sem o olhar atento do último profissional que
era legitimamente considerado um mestre da dança recifense - Nascimento do
Passo - está aparecendo atualmente relatos e conversas entre alguns dançarinos,
a respeito de passistas e pseudos foliões do nosso carnaval, que estão
desejando se transformar, de uma hora pra outra, nos novos possíveis mestres da
dança do frevo. O mais estranho disso tudo, é saber que esses autênticos
passistas, que apenas há alguns anos deram início à sua trajetória, muitas
vezes estimulam o fato e concordam em aceitar a indevida e imérita alcunha.
Imagino como seria a transformação da história
de vida de esforçados profissionais de dança, na construção da biografia de um
verdadeiro mestre do passo. Será que se faz um pelo certo número de aulas
ministradas, apresentações ou por alguns anos pulando nos carnavais de Olinda e
Recife? Se for assim, teremos um mestre em cada esquina e todo grupo que se
preze terá o seu.
Pergunto-me qual a real necessidade disso.
Seria o mais urgente a fazer? Sem avaliar a tolice que estão fazendo, buscam
chamar a atenção para uma tênue carreira, sem compreender que nem mesmo os seus
colegas mais próximos lhes dão o respaldo necessário para legitimar esta
condição. Creio que a atitude seja uma saída para um mercado artístico
saturado, em uma região em que os passistas se acotovelam, buscando as luzes
mais brilhantes de uma notoriedade tanto desejada, e criando, talvez, um
diferencial para se sobressair em meio a tantos iguais.
Não questiono a qualidade de determinados
dançarinos que hoje estão espalhados pelo nosso Estado e até fora do país,
alguns, com trabalhos reconhecidamente louváveis e suficientemente merecedores
de aplausos. Mas, a despeito disso, começarmos a instituir graduações de toda
forma para satisfazer desejos pessoais e massagear os egos insatisfeitos de
artistas frustrados, é outra história.
Que responsabilidade há, quem, por um excesso
de egoísmo propaga informações tão autoelogiáveis? E como ficam àqueles que só
há pouco convivem com os prováveis “catedráticos do passo”, e de alguma forma
podem ser persuadidos a ampliar o caso? Já pude observar desavisados alunos
exaltando alguns dançarinos, cognominando meros instrutores de frevo, de mestre.
Existia uma máxima no discurso nazista que dizia: “uma
mentira repetida mil vezes se torna verdade”.
Afirmo
que a intenção aqui não é criar polêmica, até porque tenho muitos amigos no
meio, entretanto, gostaria que houvesse um esforço de raciocínio por parte dos
envolvidos, para estabelecer um diálogo constituído pelo bom senso, numa
análise voltada realmente para aspectos importantes do frevo. Não deixando que
interesses pessoais desvirtuem uma discussão que poderia abarcar questões muito
mais relevantes para o nosso ritmo centenário. Poderíamos iniciar este
debate fazendo diversas abordagens, como: a falta de apoio institucional para a
dança; a carência de políticas públicas para os passistas; a ausência de
engajamento da classe; a injusta relação de certos produtores no trato com
alguns grupos. Mas, um ponto em especial venho analisando há um tempo: a constante
padronização do passo, fenômeno que tem se proliferado por escolas, grupos e
que nada traz de produtivo para o futuro do frevo.
Quando ingressei na Escola Municipal de Frevo
do Recife no final de 1997, tive a impressão que estava num ambiente de
formação cultural singular, e apesar de saber que todos ali tiveram a mesma
base e passaram pelos mesmos ensinamentos contidos no Método Nascimento do
Passo, nas exibições individuais, nas “rodas” ou mesmo em apresentações,
assinalava-se sempre uma performance única e maravilhosamente imprevisível,
numa demonstração de habilidade técnica elevada, proporcionada por uma
metodologia que estimulava realmente o dançar autêntico e espontâneo de
Pernambuco.
Enquanto isso acontecia na Escola, não era difícil observar
na cidade outros diferentes estilos de fazer o passo, e como se tornava comum
identificar a procedência de determinados passistas. Quem acompanha a folia
pernambucana há pelo menos uns quinze anos sabe o que estou dizendo. Hoje,
parece que todos são iguais, não havendo diferença entre os dançarinos de
Recife, Olinda ou de qualquer outro lugar - salvo algumas exceções - onde a
distinção esteja apenas nas “pintas” realizadas.
Mesmo assim, parece que esses temas não têm
despertado a atenção dos novos e ilusórios mestres do passo. Talvez porque eles
estejam mais preocupados em ajustar seus currículos e olhar seus umbigos, do
que perder tempo com assuntos que não chamam a atenção do público.
O frevo não será melhor ou pior com o
estabelecimento intencional de novos doutores da dança, e se houver mestres,
que haja por mérito e com a evolução natural de seu ofício e das intervenções
significativas que estes, porventura, tenham produzido no decorrer dos anos. Egídio
Bezerra, Coruja, Sete Molas e o próprio Mestre Nascimento, não foram criados
por reuniões ou por escolhas aleatórias. Tiveram acima de tudo, o
reconhecimento da sociedade pelo empenho em difundir sua arte, fazendo dela não
só um meio de sustento e enaltecimento pessoal, mas, sobretudo, porque eram
trabalhadores incansáveis e artífices fundamentais de sua essência.
Como podemos vislumbrar mestres sem ter
acumulado legado e sem discípulos?
Obter reconhecimento custa tempo, prática, e não combina com
a maneira que as pessoas atualmente estão acostumadas a pensar. Às vezes, o
trabalho de formiguinha - aquele construído através de pequenas descobertas,
experiências, erros e acertos do dia a dia - traz muitas alegrias, e ao
contrário do que muitos pensam, é extremamente importante para a edificação de
uma história cultural nas manifestações populares. O difícil é conhecer quem
esteja disposto a esperar. E não adianta querer comparar outros segmentos da
cultura tradicional para estabelecer um referencial facilitador que possa
estreitar o caminho, e sirva como mote para o almejado e sonhado titulo. Um
mestre de frevo deve ser legitimado pelo próprio frevo, e fundamentalmente
aceito pela sua classe.
Aqueles que pretensiosamente ambicionam um lugar de destaque na
nossa dança, até agora não exteriorizaram com conveniente eloquência as
opiniões sobre o ato, e nunca deixaram claro em que ideias se baseiam para
aprontar tamanho delírio. Como aconteceria a avaliação, quais critérios, formas
e sob qual peso cultural esses indivíduos seriam submetidos? Se isso não
acontece, sou forçado a acreditar que desejam assemelhar-se ao mais recente
mestre conhecido. E só por isso, já seria uma tremenda insensatez.
Expondo uma nítida carência íntima, o ato de
criação dos “neomestres do frevo”, além de não esconder o desejo de alguns
quererem ser vistos como artistas acima dos padrões convencionais, também não
encobre um possível e descabido interesse financeiro nos planos. De acordo com
o próprio Nascimento do Passo, não creio que esta notícia iria lhe despertar
maiores entusiasmos. Sua trajetória passou por caminhos muito mais
significativos do que simplesmente colher apoio em favor de uma graduação
desnecessária e sem a devida estrutura histórica.
No caso dos Guerreiros do Passo, nenhum professor do grupo,
mesmo àqueles que tenham se originado nas aulas de Nascimento, não carregam a
designação, não a desejam e sentem-se desrespeitados quando o fazem
propositalmente.
Lembrando que um dos princípios essenciais no estabelecimento
da maestria é o tempo, sugiro aos aspirantes a mestres que continuem
trabalhando, deixem de superficialidades, abram mais espaços, ponham a cara com
coragem e defendam sua dança, formem multiplicadores, constituam técnicas,
unam-se, assimilem conhecimentos, repassem saberes, respeitem seus colegas,
sejam criativos, criem/recriem seus métodos. E com isso, quem sabe, daqui uns
30 ou 40 anos, tenham uma posição de destaque nas manifestações populares, e
possam, também, ter seu nome registrado na história do frevo pernambucano.
Vivam os
verdadeiros Mestres do Passo!
Eduardo Araújo