NAS AULAS DOS GUERREIROS A GRANDE ESTRELA É O FREVO!

Veja algumas imagens e tire suas próprias conclusões.

UNIÃO ENTRE PASSISTAS, É POSSÍVEL?

OPINIÃO. Fala-se muito da necessidade de ver um dia a tão esperada união entre os passistas de frevo.

A FORÇA DA CAMISA AZUL

Nas aulas do Projeto Frevo na Praça, já foi possível observar que os professores dos Guerreiros do Passo, utilizam nos seus encontros semanais no bairro do Hipódromo...

MAX LEVAY REGISTRA OS GUERREIROS DO PASSO

O pernambucano Max Levay, profissional de reconhecido talento da arte da fotografia, fez um bonito registro dos Guerreiros do Passo no último mês de março. O artista produziu...

FOCO NO APRENDIZADO

Hoje em dia a busca por um melhor condicionamento na arte desenvolvida pelos famosos passistas de frevo, tem levado alguns praticantes a sair por ai pulando de aula em aula...

News - Guerreiros pretendem retornar às atividades abertas ao público ainda este ano/ Este site vai entrar em manutenção.

Festa junina de hoje

Nossos festejos não são mais como antes, estão se transformando nos carnavais modernos, estáticos, de palco. Nas cidades afora não se vê mais aquela festa tradicional e não menos deliciosa de se brincar, de se deleitar com tantas simbologias clássicas do nosso povo nordestino. Todos são convocados para a Praça principal, com indivíduos atraídos a centros públicos de shows para ver bandas que se assemelham com verdadeiros espetáculos sensuais e apelativos. Claro, existem algumas exceções e focos resistentes, e é preciso louvar essas iniciativas.   

Nos subúrbios, não se pode mais apreciar os arraiais que eram erguidos para a comunidade festejar, muitos, calabouços festivos de namoros e romances eternos.  Alguns ainda guardam as lembranças de um tempo recente, de brilho, de alegria. Hoje, mantêm apenas as sedes de quadrilhas que atualmente só são produzidas por disputa, concursos. Muitas delas se parecem mais com alegorias de qualquer escola de samba, e não me admiro que mais tarde tenham suas alas e carros característicos. E observem que sou um folião de carnaval, mas não gostaria de ver os ciclos se misturarem, com uma intenção de transformar as tradições em pretexto de lucros e de fazer números de participação popular para levantamentos políticos.

Podem até me chamar de conservador e ultrapassado, apesar de manter ainda na mente as lembranças de um São João de menino, vivo entre meus pensamentos, e que afirmo ser contemporâneo e atual. Quem pode dizer que o amor é ultrapassado? Ele é tão antigo quanto os festejos da humanidade e não cai de moda mesmo com os progressos do homem.

Já se pode ouvir falar atualmente na organização de diversas reuniões de amigos em ruas, garagens ou em quintais para formar seus grupos matutos e arrasta-pés descontraídos. Será que todos estes são saudosistas? Ou só querem novamente fazer voltar e sentir uma festa realmente de participação popular e autêntica? Talvez seja uma resposta as excrescentes modificações que foram impostas à cultura da região.

Sou simpatizante do período junino nos moldes que aprendi ser legítimo, e creio que não seja apenas meu, mas seu, de Pernambuco, do Brasil. Viva o mês de junho, viva São João e São Pedro, nem que seja simplesmente na mente.

Eduardo Araújo

Da existência do Frevo e do Passo

Por Leonardo Dantas
Em todos os carnavais aparecem sempre os estudiosos com novas teorias sobre este ou aquele aspecto.
No ano passado foi a tentativa de criação de um chamado Frevo de Palco, quando melhor se aplicaria a expressão já consagrada de Frevo Sinfônico, para justificar o andamento e apresentação dos três vencedores na categoria de “Frevo de Rua” no concurso da Prefeitura do Recife para 2011.
Agora surgem as opiniões da dispensável presença do passista nas apresentações do frevo instrumental (!).
Seria um frevo só para ser ouvido, assistido ordeiramente como se estivéssemos no Carnegie Hall de Nova Iorque,  nunca dançado (!)
 
Trata-se, segundo Guerra Peixe, de uma característica do frevo instrumental, no seu aspecto dança que o pernambucano denomina de passo: “e aí encontramos um fenômeno único na música popular brasileira. É a única dança em que o dançarino dança a orquestração. Cada volteio de um instrumento é acompanhado por um passo ou uma firula [volteio, rodeio] do passista. É uma dança individual, com a maioria dos passos tradicionalizados, mas que cada um executa a sua maneira”.

Dentre os muitos gêneros do frevo, o frevo-de-rua, é o de maior importância, pela sua identidade coreográfica com o passo. É nele que o compositor vem demonstrar todo o seu conhecimento musical, a sua forma de compor e de criar frases utilizando-se dos metais (trombones, trompetes, tubas) em constante diálogo com as palhetas (clarinetos, requinta, saxofones) de uma orquestra de ritmos carnavalescos.

Acompanhando o seu andamento e fraseados, bem como os cantos e contracantos entre palhetas e metais, o passista (dançarino do frevo) cria, no ato, a sua coreografia própria, sem, contudo, agredir o que o compositor escreveu na pauta musical, segundo ensina Guerra-Peixe, “é a única dança que o dançarino dança a orquestração”.
 
O frevo tem tantos passos quanto a inventiva do passista permitir, desde que sua coreografia venha obedecer ao andamento da orquestração da partitura que está sendo executada pela orquestra ou banda de música.  
 
No passado, em 1976, em pesquisa realizada com os passistas “Nascimento do Passo” (Francisco Nascimento Filho), e Coruja (Arnaldo Francisco das Neves), este músico ritmista (pandeiro) e festejado passista do carnaval do Recife, relacionamos e catalogamos, em trabalho conjunto com a Prof. Jurandy Austermann, da Equipe do Departamento de Cultura da Secretaria de Educação e Cultura do Estado de Pernambuco, 48 passos, sem contar com os do porta-estandarte, 21 dos quais foram detalhados na publicação Ritmos e Danças – Frevo 2, do mesmo Departamento(¹)
 
Da observação da vida, o passista cria os nomes dos seus passos: “saca-rolha”, “canguru”, “tesoura”, “locomotiva”, “chá de bundinha”, “carrossel”, “pisando em brasa”, “urubu baleado”, “é de bandinha que eu vou”, “ferrolho”, “tramela”, “passeando na Pracinha” (referência à Praça da Independência, popularmente conhecida por Pracinha do Diario, chamada de “Quartel-General do Frevo”), “encaracolado”, “plantando mandioca”, “parafuso” e uma infinidade de outros que variam segundo os seus executantes.
 
O festejado escritor Mário de Andrade (1893-1945), em depoimento citado por Valdemar de Oliveira, referindo-se à coreografia do frevo instrumental sintetiza:
 
A vibração paroxística do frevo é realmente uma coisa assombrosa. É, enfim, um verdadeiro allegro num presto nacional.  É, sem dúvida, o entusiasmo, a ardência orgíaca, mais dionisíaca de nossa música nacional. E aquele rapaz que dançou! Mas, será possível que uma coreografia assim ainda se conserve ignorada dos nossos teatros e bailarinos? Que beleza! Que leveza admirável! É uma fonte riquíssima. É um verdadeiro título de glória que o país ignora, simplesmente porque entre nós são muito raros os que têm verdadeira convicção de cultura.(²)

Daí a afirmativa de Capiba, em um dos seus mais conhecidos frevos-canção:

Pernambuco tem uma dança
Que nenhuma terra tem
Quando a gente entra na dança
Não se lembra de ninguém
É maracatu, não!
Mas podia ser.
É bumba-meu-boi, não!
Mas podia ser.
Não será o baião, não!
Mas podia ser,
É dança de roda
Quero ver dizer…
É uma dança
Que vai e que vem
Que mexe com a gente
É frevo, meu bem! (³)
 
Mas, para o folião endiabrado, aquele que vê no frevo uma válvula de escape do extravasamento de sua alegria, ou, como na receita de Luiz Bandeira, “quem é de fato um bom pernambucano, espera um ano e se mete na brincadeira”, ficam os versos do poeta Austro Costa:

Não sei se devo, ou não devo 
Dizer, mas digo afinal:
Se até Roma fosse o Frevo, 
Teria a Bênção Papal!
___________________
 1) DANTAS-SILVA, Leonardo. Ritmos e danças – Frevo. Recife: Governo do Estado de Pernambuco; MEC – FUNARTE, 1978. 44 p. il. Contém um disco com seis frevos-de-rua.
2) OLIVEIRA, Valdemar de. Frevo, capoeira e passo. Recife: Companhia Editora de Pernambuco, 1971.  p. 119.
3) CAPIBA. É frevo meu bem. Frevo-canção. Continental nº 16322 matriz 2426. Carmélia Alves, orquestra e coro, lançado em janeiro de 1951.

Leia alguns comentários sobre este texto na publicação do site Besta Fubana.

A DANÇA DE PERNAMBUCO

Publicado no site Besta Fubana.
Por LEONARDO DANTAS
Com o advento da abolição da escravatura negra (1888), e o surgimento da República (1889), tornaram-se mais frequentes o aparecimento de novos clubes carnavalescos, com todos os elementos integrantes dos desfiles militares acrescidos da influência das procissões religiosas; como é o caso do estandarte, uma cópia dos pendões das corporações profissionais e das irmandades e confrarias, hoje símbolo quase da maior parte das agremiações carnavalescas.

Oriundos de grupos profissionais de operários urbanos, os Clubes Carnavalescos Vassourinhas (1889), das Pás (1890), Lenhadores (1897), Pão Duro (1916), Toureiros de Santo Antônio (1916), Prato Misterioso (1919), além de outros mais recentes, chegaram até os nossos dias. Outros, porém, como Caiadores, Empalhadores, Operários, Jornaleiros, Suineiros, Quitandeiras, não mais existem.
 
As rivalidades entre as agremiações sempre foram uma constante no carnaval de Pernambuco. Com tal clima e elementos, os capoeiras, “brabos” e “valentões” passaram a praticar “exercícios de capoeiragem” em frente aos cordões carnavalescos - A Pimenta (1901). Tais exibições de capoeiragem quando nada redundavam em agressões, como a narrada pelo Jornal Pequeno, de fevereiro de 1907, em que foi vítima o diretor do Clube Carnavalesco Tome Farofa.
 
Procurando esconder-se das perseguições dos Chefes de Polícia, o nosso capoeira foi maneirando os seus passos - “rabos de arraia”, “pernadas”, “cabeçadas”, “pisões”, etc – criando assim uma coreografia própria de modo a acompanhar a “onda”. Nesta coreografia, onde não foi desprezada totalmente a agressividade, foram aparecendo passos que, por determinadas semelhanças, passaram a possuir denominações próprias.
 
O capoeira de ontem originou o passista de hoje: Camisa multicolorida, aberta no peito e amarrada na cintura, ou ainda camisa de malha com três cores; sapato tênis branco; bermuda ou calça arregaçada; chapéu de palha e um “chapéu-de-sol” desbotado a complementar a indumentária; bem dentro da descrição do nosso Capiba:
 
De chapéu-de-sol aberto
Pelas ruas, eu vou…
A multidão me acompanha…
Eu vou!…
Eu vou e venho, pra onde não sei
Só sei que carrego alegria,
Pra dar e vender!
 
Três goles de cachaça, um “frevo rasgado” oriundo de uma fanfarra, bastam para transmudar esse homem num demônio, que até parece ter  o “diabo no couro”, tal o número de complicados passos que passa a fazer.
 
A exemplo de seus ancestrais, traz quase sempre um chapéu-de-sol na mão, alguns até sem pano (“sombrinhas borboletas”), como um remanescente do cacete ou da bengala dos tempos idos.
 
Quando nos cordões dos clubes ou troças, os passistas envergam um bastão encimado pelo distintivo da agremiação – machado, vassouras, pás, prato, ave, bacia, etc – dependendo pertencer ele ao Lenhadores, Vassourinhas, Pás Douradas, Prato Misterioso, Papagaio Falador ou Lavadeiras de Areias. Mas nos cordões o “passo rasgado” é raro, a coreografia obedece mais a uma evolução não dando margem a grandes criações; estas ficam por conta dos grupos e passistas, alguns especialmente contratados, que acompanham a agremiação.
 
Os passistas modernos, geralmente formando uma ala especial nas grandes agremiações, passaram a usar sombrinhas coloridas de 50 centímetros de comprimento por 60 de diâmetro, a fim de facilitar passos que são verdadeiras acrobacias: “vôo da andorinha”, “tesoura no ar”, “coice de burro”, “tesoura cruzando”, “canguru”, “tesoura passando a sombrinha”, “trem de ferro”, dentre outros.
 
Os chamados “Concursos de Passo”, desenvolvido pelos jornais e posteriormente pelas emissoras de rádio e televisão, vieram incentivar a criatividade dos passistas. Assim despontaram, chegando a fazer escola, Egídio Bezerra, hoje falecido, mas em sua época conhecido como o “Rei do Passo”, “Sete Molas”, “Nascimento do Passo” (Francisco Nascimento Filho), “Coruja”, (Arnaldo Francisco das Neves), que vieram a ser professores de “Pipoca”, Antúlio Madureira, “Meia-Noite” e tantos outros representantes da nova geração de passistas.
 
“No mar do frevo, cada peixinho nada de seu jeito” – diz com muita propriedade Luís da Câmara Cascudo, em depoimento pessoal, acrescentando: “Frevo, glória pernambucana, autêntico, positivo, real, nas músicas de sua dinâmica contagiante e mágica. No passo, cada bailarino executa ad libitum a reação mímica da interpretação pessoal. Música determinante de agilidades inesperadas, piruetas famosas, na sombra simbólica da sombrinhas borboletas”.
 
Este é segundo Guerra Peixe  uma outra característica do frevo, no seu aspecto dança que o pernambucano denomina de passo: “e aí encontramos um fenômeno único na música popular brasileira. É a única dança em que o dançarino dança a orquestração. Cada volteio de um instrumento é acompanhado por um passo ou uma firula [volteio, rodeio] do passista. É uma dança individual, com a maioria dos passos tradicionalizados , mas que cada um executa a sua maneira” (¹).
 
A afirmação do grande musicista fluminense, que por alguns anos pesquisou o Carnaval do Recife, porém, não se aplica a certos “professores”, “mestres” como se autodenominam, das escolas de passo dos nossos dias, mais para balé de teatro de revista do que mesmo para o verdadeiro passo pernambucano.
 
Empolgados com elogios dos desavisados, mequetrefes das mais caras e verdadeiras tradições do carnaval pernambucano, nem de longe acompanham a orquestração da partitura original, põem-se a dar pinotes, numa coreografia mais próxima da ginástica aeróbica de alto impacto, numa demonstração inconsequente de uma sucessão de falsas acrobacias, quando a orquestra está a executar um solo de requinta ou saxofones. Em tais demonstrações, numa total e absoluta heresia, chegam esses “mestres” a exibir passos característicos dos frevos-de-rua na parte vocal de um frevo-canção (!).

É demais!

O frevo tem tantos passos quanto a inventiva do passista permitir, desde que sua coreografia venha obedecer ao andamento da orquestração da partitura que está sendo executada pela orquestra ou banda de música.  No passado, em 1976, em pesquisa realizada com o próprio “Nascimento do Passo” (Francisco Nascimento Filho), ainda na sua pureza de artista popular,  e Coruja (Arnaldo Francisco das Neves), este músico ritmista (pandeiro) e festejado passista do carnaval do Recife, relacionamos e catalogamos, em trabalho conjunto com a Prof.  Jurandy Austermann, da Equipe do Departamento de Cultura da Secretaria de Educação e Cultura do Estado de Pernambuco,  48 passos, sem contar com os do porta-estandarte, 21 dos quais foram detalhados na publicação Ritmos e Danças – Frevo 2, do mesmo Departamento (²)
 
Da observação da vida, o passista cria os nomes dos seus passos: “saca-rolha”, “canguru”, “tesoura”, “locomotiva”, “chá de bundinha”, “carrossel”, “pisando em brasa”, “urubu baleado”, “é de bandinha que eu vou”, “ferrolho”, “tramela”, “passeando na Pracinha” (referência à Praça da Independência, popularmente conhecida por Pracinha do Diario, chamada de “Quartel-General do Frevo”), “encaracolado”, “plantando mandioca”, “parafuso” e uma infinidade de outros que variam segundo os seus executantes.
 
Mário de Andrade, em depoimento citado por Valdemar de Oliveira, referindo-se à coreografia do frevo sintetiza:
A vibração paroxística do frevo é realmente uma coisa assombrosa. É, enfim, um verdadeiro allegro num presto nacional.  É, sem dúvida, o entusiasmo, a ardência orgíaca, mais dionisíaca de nossa música nacional. E aquele rapaz que dançou! Mas, será possível que uma coreografia assim ainda se conserve ignorada dos nossos teatros e bailarinos? Que beleza! Que leveza admirável! É uma fonte riquíssima. É um verdadeiro título de glória que o país ignora, simplesmente porque entre nós são muito raros os que têm verdadeira convicção de cultura (³)

 Daí a afirmativa de Capiba, em um dos seus mais conhecidos frevos-canção:

Pernambuco tem uma dança
Que nenhuma terra tem
Quando a gente entra na dança
Não se lembra de ninguém
É maracatu, não!
Mas podia ser.
É bumba-meu-boi, não!
Mas podia ser.
Não será o baião, não!
Mas podia ser,
É dança de roda, não!
Quero ver dizer…
É uma dança
Que vai e que vem
Que mexe com a gente
É frevo, meu bem!
_______________
1) GUERRA-PEIXE, César. art. cit.
2) SILVA,  Leonardo Dantas. Ritmos e danças – Frevo. Recife: Governo do Estado de Pernambuco; MEC – FUNARTE, 1978. 44 p. il. Contém um disco com seis frevos-de-rua.
3) OLIVEIRA, Valdemar de. Frevo, capoeira e passo. Recife: Companhia Editora de Pernambuco, 1971.  p. 119.

Oficina de montagem e conserto de sombrinhas

Domingo passado (dia 20), realizou-se na sede dos Guerreiros do Passo mais uma oficina de conserto e montagem de sombrinhas de frevo. O trabalho visa restaurar e recuperar os utensílios das aulas, usando peças e sombrinhas quebradas arrecadadas no Projeto desenvolvido na Praça do Hipódromo, e que ainda podem ser reutilizadas para a remontagem de outras ou compor partes fundamentais na estrutura das mesmas.

O que para muita gente é descartável, para nós é a maneira que encontramos de manter em dia os instrumentos básicos das aulas, já que a compra de sombrinhas novas torna-se inviável na atual realidade do grupo. Com a iniciativa, evita-se que materiais plásticos, madeira e ferro sejam jogados rapidamente na natureza, preservando o meio ambiente e conservando um hábito herdado do Mestre Nascimento do Passo. Participaram da oficina, o professor Gil Silva, Lucélia Albuquerque, Daniele Costa e Eduardo Araújo.

O HOMEM DO ACERVO

Publicado no DIARIO de PERNAMBUCO em 20 de maio de 2012.

Pesquisador Leonardo Dantas guarda em casa mais de 500 vinis, a maioria de música pernambucana, além de livros de frevo e forró
Imagem: NANDO CHIAPPETTA/DP/D.
Abrindo sobre a mesa de jacarandá um dos livros que editou sobre a história do Recife, o jornalista e pesquisador Leonardo Dantas aponta para uma foto do bairro da Torre, na Zona Oeste da cidade. Mostra a Igreja, a casa espaçosa, uma chaminé. Tudo cercado por mato. A foto é de 1980 e nesses mais de 30 anos tudo mudou ao redor. A vegetação deu lugar às ruas, à praça e às casas - que já estão virando passado, substituídas por edifícios altos. Leonardo Dantas resiste. Mora na mesma casa em que nasceu, a poucos metros da igreja da Torre. Os cômodos são abarrotados de quadros, esculturas, móveis antigos e livros. Ele já editou 377 livros, sendo 47 escritos ou organizados por ele. Sete são sobre a música pernambucana.

Mais conhecido como pesquisador da história da cidade, Leonardo Dantas tem um currículo extenso em 50 anos de trabalho. Entrou para o jornal Diário da Noite aos 16 anos, como revisor. Passou mais de 20 anos nas redações. Foi o criador do Frevança e do extinto Baile da Saudade, que ocorreu por 18 carnavais no Clube Português. Dirigiu a editora Massangana e produziu discos para a Rozenblit. Fez amizades para a vida toda no meio artístico. Claudionor Germano, de 80 anos, é considerado um irmão. “Quando tive problemas de saúde, quem estava do meu lado no hospital, às 5h da manhã, era ele”, conta.

O frevo é sua grande paixão musical. Na juventude, era um bom passista. Chegou a escrever um livro detalhando o método da dança do frevo, para ser utilizado em escolas da rede pública. “Fiz um projeto para retirar o balé das escolas e colocar frevo, maracatu, caboclinho. Foi uma polêmica”, lembra. Nos móveis em que guarda seus mais de 500 LPs há preciosidades quase intactas como álbuns de Capiba autografados e um bom material de música brasileira lançado por empresas de vida curta, como o selo Marcus Pereira Discos.

Tem LPs dos irmãos Raul e João Valença, de Levino Ferreira - que foi seu professor de teoria musical e a quem considera o maior compositor de frevo de rua -, coletâneas de cultura popular e o primeiro disco com gravações ao vivo de frevo, feito em 1980 no Teatro de Santa Isabel. Entre os inúmeros livros, uma cópia de O sanfoneiro do Riacho da Brígida, de Sinval Sá, com dedicatória “ao bom amigo-conterrâneo Leonardo Silva”, assinada por Luiz Gonzaga. (Ele deixou de assinar “Leonardo Silva” quando um criminoso como esse nome apareceu nos jornais).

Apesar do amor ao frevo e à música, Leonardo Dantas não toca nenhum instrumento. “Eu estudava com Levino Ferreira e aí ele disse que eu tinha que comprar um piano. Eu disse que não podia, ele retrucou que comprasse pelo menos um clarinete. Fui à loja e falei ao meu pai o preço de três contos e quinhentos. Ele respondeu: ‘isso é quanto teu pai ganha em um mês!’”. No final da tarde da quarta passada, Leonardo recebeu o Diario em casa para uma conversa. Foram quase três horas que correram fácil, em meio a lembranças e projeções. O carnaval foi tema constante. Confira. (Carolina Santos)

Centenário de Luiz Gonzaga
Concordo com todas as homenagens ao seu centenário. Tudo que fizerem por ele é merecido. Acho que falta mais pesquisa sobre a obra e a vida de Luiz Gonzaga. O livro da francesa Dominique Dreyfuss (Vida de Viajante, editora 34) foi construído a partir de vários depoimentos dele, mas não aborda a discografia. Os pesquisadores estrangeiros vêm atrás de documentos, mas eu acho que ainda está faltando uma biografia completa para Gonzaga. Você pega o livro de José Mário Austregésilo (Luiz Gonzaga, o homem, sua terra e sua luta, editora da Fundação de Cultura Cidade do Recife) e tem letras erradas. Luiz Gonzaga merece tudo, mas foi perseguido por ser considerado de direita. E por ser de direita, foi soterrado. Quem levantou Luiz Gonzaga foi Carlos Imperial ao inventar o boato, na década de 1970, de que os Beatles iam gravar Asa branca. 

Luiz Gonzaga, o homem
Conheci Luiz Gonzaga nas redações, nas rádios. Ele era um cara que não imaginava o valor que tinha. Era um imediatista. Não estava interessado no futuro, mas em ganhar o dinheirinho dele naquele momento. Agora esse dinheirinho era em cima de um caminhão, na esquina, em qualquer lugar. Era um sujeito autêntico e muito bom. Sempre incentivou quem vinha atrás. Marinês, Zé Calixto, Dominguinhos, Quinteto Violado, todo mundo é cria dele. A casa dele no Rio de Janeiro era uma hospedaria. Acompanhei o início do romance dele com Edelzuíta. Ela trabalhava numa firma de empréstimo perto do Diario. Gonzaga era apaixonado por ela. Foi um amor de velhice. Me lembro da briga de Helena com Luiz Bandeira. Bandeira fez Fulô da marvilha quando estava começando o caso de Gonzaga com Edelzuíta e Helena dizia que Bandeira tinha feito a música de encomenda de Gonzaga para Edelzuíta. 

Parceria com Capiba
Gonzaga dava o mote e o compositor fazia a música e depois ele assinava em parceria. Gonzaga diz que Zédantas já chegou no hotel dele cantando umas músicas. Então já tinha melodia e letra! Ele colocou o nome na parceria com a música pronta. Já Capiba fez Engenho Massangana e Gonzaga queria assinar também, para gravar. Capiba, vaidoso do jeito que era, não aceitou. 

Política cultural
Quem vem depois faz o possível para acabar o que você fez e fazer outra coisa. Eu digo que a primeira coisa que um chefe faz é mudar a arrumação dos móveis e colocar uma placa dizendo que foi ele quem arrumou. Não há continuidade nas políticas de cultura. Do que eu fiz, a oficina de luteria, que poderia estar com pessoas formadas para consertar instrumentos, não existe. O projeto Espiral foi extinto também - a Orquestra Cidadã é uma reedição dele. Não existe programa editorial na prefeitura. O que a prefeitura publicou? O que o estado publicou? Nada, nada.

Carnaval de palco
É uma desgraça, acabou o carnaval. Eu resolveria aquilo ali de uma forma simples. Transformaria o Marco Zero em grande baile. Com dois palcos, mais baixos - para que aquele palco tão alto? - um na ponta e outro na outra e as atrações se cruzavando. A música não parava. Porque se passa 1h40 para assistir uma Maria Gadú que não sabe nada. Ou uma “Zefa do Pifo”, Zeca Baleiro… o que esse povo canta de carnaval? Você podia pegar esse povo todo e diluir durante o ano. Tinha festa o ano todo. E no carnaval colocava os ritmos carnavalescos. Esse ano colocaram uma orquestra local para abrir cada dia e elas é que esquentavam, depois era aquela monotonia…

Frevo moderno 
Se eles fazem um frevo para dançar, tudo bem. Mas se eles querem fazer demonstração de jazz, não dá. Tem até músicas de Chico Science que o povo vem abaixo. Mas quando você faz variações como aquele show de Lenine (na abertura do carnaval de 2011, em homenagem às mulheres), não leva a nada. Fica um olhando pra lá, outro pro palco. Um grupinho que curte canta aquelas músicas, o resto fica só olhando. Mas você coloca um Duda, um Ademir Araujó, ou o próprio maestro Forró, e o Marco Zero vem abaixo. O carnaval sempre foi multicultural. Já no século 19 tinha maracatu, frevo, todas as diferentes manifestações, inclusive de etnia. Não é novidade nenhuma, apenas deram esse nome bonitinho, feito em agência. Todas essas atrações já vêm num pacotinho pronto para cá. Essa história de homenagear as mulheres já veio pronta. Eu não vejo a cultura só para homem, para mulher, para gay. Vejo cultura como uma coisa só. 

Diversidade
Você não vê uma orquestra de frevo tocando no São João. Isso nunca aconteceu porque carnaval é carnaval, São João é São João. Agora, “dona Zefa do pife” tem que tocar no carnaval e no São João porque é multicultural! Alguém está ganhando comissão. As orquestras e agremiações que desfilaram no carnaval ainda não foram pagas. Algumas estão esperando até o dinheiro do São João passado. Abanadores do Arruda e Coqueirinhos de Beberibe ainda não receberam.

Um breve Adeus ao Mestre dos Blocos

Um sonho assim
Não se esvai no fim da noite
como se fosse
uma noturna ilusão...
Vê que ainda
cintilam no sonhar da gente
dois vagalumes de paixão!
Ah, quanto lirismo em nossa fantasia!...
Quanto desejo da luz ao nosso olhar!...
Vê que mesmo
além de uma noite finda
há uma esperança,
ainda que nos faz sonhar!

Romero Amorim
1937 - 2012
 

GUERREIROS DO PASSO EM REDE NACIONAL

Neste sábado, dia 24 de março, a TV BRASIL reapresentou o programa EXPEDIÇÕES. O tema desta vez foi o Frevo. Os Guerreiros do Passo participaram das filmagens com imagens do grupo e entrevistas. Para àqueles que não puderam assistir o documentário nas duas oportunidades em que foi exibido, poderão ver na íntegra agora.

Frevo vai além de fazer o passo

PARTITURAS - Músicos e defensores do ritmo pernambucano ficam abismados com a falta de material que permita transmitir a todos a beleza de sua estrutura
Especial para o JC - Matéria publicada no Jornal do Commercio dia 04 de março de 2012
Conversar com José Menezes é o mesmo que entrar numa viagem pela história viva da música brasileira. Nascido na cidade de Nazaré da Mata, interior do Estado, e integrante de uma família de músicos, o maestro dedicou 70 dos seus quase 89 anos de idade a um dos mais notáveis e originais ritmos nacionais: o frevo. A paixão do compositor e arranjador pelo estilo é de encantar e contagiar. No entanto, parte da empolgação se dilui quando perguntado sobre o andamento do ensino do frevo em sua própria terra de origem. Não tem método! Não tem escola! Tá tudo errado! angustia-se.
O lamento do autor de grandes frevos como Vai pegar fogo, Terceiro dia, Tá bom demais, entre muitos outros, além de bastante pertinente, chega a ser surreal. Como uma arte centenária ainda não foi sistematizada em larga escala, não ganhou métodos de ensino e distribuição em território nacional e internacional?

É muito, na verdade, muitíssimo mais fácil um músico pernambucano encontrar obras educacionais sobre jazz, pop, rock, funk, heavy metal, música latina ou africana do que achar títulos (infelizmente, imaginários) como: Ensino básico de frevo para bateria, Técnicas de improvisação no frevo, Play alongs de frevo para baixistas ou Frevo para saxofonistas.

Importante nome do cenário da música pernambucana atual, o maestro Spok afirma que essa é uma preocupação que o acompanha e tem se intensificado há, pelo menos, uma década. Ele conta que, certa vez, ao viajar para tocar com Antônio Carlos Nóbrega em uma cidade da França, passou pelo que considera um grande constrangimento. Ao término de show ao ar livre, um músico encantado com a apresentação chegou junto de mim e me pediu partituras, informações, métodos sobre o que estávamos tocando. E, sem jeito, disse que não tinha isso, relembra.

Zé da Flauta músico, compositor, ex-diretor artístico e produtor da SpokFrevo Orquestra, entre 2002 e 2011, faz coro com o antigo parceiro de trabalho. Para ele, já passou o tempo de se encarar o frevo apenas como música sazonal, que aparece no Carnaval como coadjuvante. Ele tem que ser o ator principal. No meio da folia, a riqueza musical do frevo se perde, não é observada. Por isso, falo sempre do frevo de palco. Trabalho que começou a ganhar corpo com a SpokFrevo, observa.
A título de experimento, sentado diante do computador, em seu escritório em Casa Forte, o músico digita a palavra frevo no Google e clica no item imagens no menu superior do site de busca. Veja o que aparece: passo, passo, passo! Apenas imagens da dança, da festa. Onde estão as imagens dos músicos?, indaga. Em seu discurso, Zé da Flauta procura não deixar espaços para má interpretações. A festa, o passo são importantes, mas ele defende a tese de que o frevo a exemplo do jazz tem qualidade, autenticidade e força suficientes para ser apreciado por um público atento, exigente. Passo não pode existir sem frevo! Mas existe o frevo sem passo, é lógico!, costuma repetir.

Tanto Zé da Flauta quanto Spok ressaltam a ótima receptividade que as apresentações da orquestra tiveram e continua a ter em festivais de jazz em outras cidades do Brasil e do mundo. Entre os dias 13 de março e 1° de abril, estaremos em turnê pelos Estados Unidos, tocando e fazendo workshops em universidades. Adoro a festa, o Carnaval, mas sou muito mais feliz tocando em teatros, com o máximo de cuidado na execução, diz Spok.

Zé da Flauta e Wellington Lima (outro ex-empresário da SpokFrevo Orquestra) estão empregando os conhecimentos adquiridos com a citada big banda pernambucana em um novo grupo. Chama-se Real Frevo Orquestra. Ele conta com ótimos músicos e vamos dar continuidade à ideia de difundir o frevo como música para ser apreciada em teatros, ressalta.

Já vem a tradicional enxurrada de eventos de axé e pagode pós-carnaval.

ARTIGO
Bem acabaram as festas, desfiles e shows musicais nas cidades do Recife e Olinda, e já deram inicio aos eventos chamados de pós-carnaval, como: Festa da Ressaca, Selinho não é gaia, Caldeirão Mix, Recife Mania Festa, Não Acredito que Te Beijei entre outros.

Apresentações e uma seleção repleta de artistas e sons que invadem nossos ouvidos durante o ano todo, e de tanto nos infernizar tocando repetitivas vezes em rádios, tv’s e na internet, não é difícil imaginar que nos peguem também cantarolando seus versos e letras fáceis de memorizar, afinal, é pra isso que elas existem, para nos transformar em lucrativos e radiantes ouvintes. Tudo bem, estamos numa democracia, temos o direito de sermos bobocas.

Sonho com um dia em que nossa música possa tocar também depois do carnaval, como o forró, o axé e o pagode. Nada de bairrismos, não importa que tenham espaço, mas, cadê o frevo, o coco, maracatu? Será que estes ritmos só são bons de ouvir e dançar nas prévias e durante o período momesco? Na prática não me parece que seja assim.

Seria preconceito dos produtores e preguiça cultural de alguns foliões? Será que há uma articulação para sufocar nossos valores? Será que somos ingênuos? Bobos? Burros? Ou somos massa de manobra de um marketing voltado para nos transformar em consumidores dementes de produtos descartáveis, com uma propaganda intencional, sobretudo para nos fazer pensar que somos o que nunca desejamos ser, ou escolher o que jamais pensamos ter?

Creio que aqui existam muitas interrogações para poucas respostas elucidativas. Mas, podemos tentar... Antes foi Reboletion, ano passado Foge Mulher Maravilha, este ano Assim você me mata, e as peças vão se sucedendo, e o que é nosso cada vez mais desvanecendo.

Na verdade, o que mais incomoda não é o sucesso alheio, e sim, o desajuste e desequilíbrio com que são tratadas as manifestações da nossa região. O bom seria que todos tivessem o mesmo espaço e condições iguais de concorrência, o que nunca acontece. Deveríamos começar pela revisão dos contratos de artistas que vem de fora para participar dos eventos patrocinados pelos poderes públicos. Uma extraordinária disparidade se compararmos o tratamento que é dado aos artistas e grupos da terra. Depois, quem sabe, rever as concessões públicas das emissoras de rádio e tv, sugerindo e incentivando uma parte da programação para a propagação dos artistas e gêneros musicais do nosso povo.

Não pensem que estamos isentos de responsabilidades com o que está acontecendo. Este fenômeno também é, de alguma forma, proveniente do nosso descaso em não dar valor e reivindicar mais espaço nas mídias para os valores locais. Vejo muita gente anunciando e propagando nas redes sociais eventos do tipo citado aqui no texto, e não demonstram nenhuma disposição em divulgar ou repassar informações sobre acontecimentos e shows da nossa cultura. Como querem depois que esses grupos e artistas sobrevivam e se mantenham na mídia? Depois não reclamem que eles sumiram do carnaval ou não estão nos Polos carnavalescos de sua preferência.

Não acredito que isso seja um acontecimento natural das transformações culturais ou um processo inevitável dos tempos. Posso apostar que há interferência sim e interesses escusos em obter ganhos exorbitantes em cima de uma população sofrida, acostumada a uma política ideológica de valores culturais duvidosos, voltados especialmente para dominar não somente seu dinheiro, mas também, sua mente.

Eduardo Araújo